Efeitos da Recente Elevação da Taxa Básica de Juros sobre a Economia Cearense

Maio 6, 2021 - 3:54 pm

Por Mauro Benevides Filho | Flávio Ataliba | Christiano Penna | Isadora Osterno

Em meio à segunda onda da pandemia de Covid-19 no Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira última, 5 de maio, por unanimidade, elevar a Selic, a taxa básica de juros, em 0,75 ponto percentual, de 2,75% para 3,50% ao ano. Dado esse choque importante na taxa de juros, a questão a saber é como essa medida pode afetar a economia cearense nos próximos meses.

Sabemos que uma elevação da taxa de juros tem diversos efeitos potenciais recessivos diretos e indiretos sobre a atividade econômica. Dentre os efeitos mais imediatos, podemos destacar sua influência sobre a redução do nível de investimento público e privado, haja vista que se torna mais caro para aqueles empreendedores, obterem financiamento para seus projetos.

Ademais, juros mais elevados reprimem o consumo agregado, pois as compras a prazo também tendem a ficar mais caras. No sentido inverso, para os detentores de recursos, os juros mais altos estimulam a poupança, já que os credores passam a ser melhor remunerados, adiando assim o consumo para período futuro. Todos esses efeitos vistos de forma conjunta tem o potencial de inibir a demanda agregada no curto prazo.

Por um lado, o aumento da taxa de juros faz com que a inflação tenda a desacelerar. Entretanto, com a queda da demanda e da atividade econômica, poderá haver uma ampliação do desemprego e informalidade. Parte desse processo se traduz em menor arrecadação para os a União, Estados e Municípios, dificultando a capacidade dos entes federativos em cumprir suas obrigações no sentido de prover a população de bens e serviços na quantidade e qualidade adequada.

Já visando problemas dessa natureza, a Secretaria de Planejamento e Gestão do Estado do Ceará, através do Observatório do Federalismo Brasileiro (OFB), com o apoio da Fundação Cearense de Amparo à Pesquisa (FUNCAP) no âmbito do Programa Cientista- Chefe em Economia, vem desenvolvendo desde o ano passado um modelo de simulação capaz de analisar diversos tipos de políticas e choques exógenos que possam vir a impactar a economia brasileira e gerar transbordamentos para a economia cearense.

Com esse modelo, é possível analisar o que acontece com essas e diversas outras variáveis macroeconômicas regionais. Outra vantagem dele é a de gerar análises de pronta-resposta a questionamentos por parte dos gestores públicos. Esse é exatamente o caso do problema do choque de juros que ocorreu recentemente, que terá efeito nacional, mas também com repercussões diferenciadas no Estados, particularmente o Ceará.

De forma mais técnica, o simulador macroeconômico que a Seplag/CE está trabalhando, é considerado um modelo dinâmico estocástico de equilíbrio geral (DSGE) que conta com 123 equações a serem solucionadas (ou 123 variáveis endógenas) e com 25 choques estocásticos (dois são choques regionais e os demais são choques em âmbito nacional).

A economia cearense foi modelada de acordo com suas características regionais e estruturais específicas. Todas essas equações são acrescidas à um modelo nacional antes de que todo o modelo seja resolvido, ou seja, o modelo é resolvido simultaneamente. Há 141 parâmetros nacionais e 43 parâmetros advindos do modelo regional, totalizando 184 parâmetros. Essa estrutura dá uma ótima ideia da dimensão e complexidade do modelo, metodologia talvez inédita até o momento para uma unidade federativa, mas com grande potencial para orientar os governos locais a partir de choques externos.

O exercício a seguir tenta capturar o choque dessa subida repentina dos juros, considerando o período que vai do 2º Trimestre de 2004 até o 4º Trimestre de 2019, ou seja, exclui os efeitos da pandemia. Na Figura 1 é apresentada uma decomposição histórica dos choques.

A linha preta representa o desvio do valor suavizado do PIB estadual com relação ao seu estado estacionário (o qual é obtido com base nos parâmetros, calibrados). As barras coloridas correspondem à contribuição dos respectivos choques a este desvio, ou seja, é a nossa “melhor estimativa” de quais choques levam à nossa “melhor estimativa” para nossas variáveis. Para facilitar a exposição, os diversos tipos de choques que o modelo contempla foram agrupados em choques fiscais, tecnológicos, monetários, regionais, estruturais e internacionais.

Figura 1: Decomposição histórica dos choques

Fonte: Elaboração própria.

Com relação à política monetária, o que se observa é que, para o período analisado, a mesma teve uma contribuição majoritariamente positiva para o crescimento do PIB cearense. Ao longo desse período a taxa de juros firmada pelo Copom vinha acompanhando as taxas de juros praticadas no exterior, ou seja, os juros vinham declinando constantemente. Essa redução dos juros explica em boa parte os efeitos positivos da política monetária sobre a taxa de crescimento do produto estadual.

Com o advento da Pandemia da Covid-19 o Governo Federal reforçou as políticas assistenciais e ocorreu uma forte injeção de recursos na economia do Ceará, principalmente através do Auxílio Emergencial e da facilitação do crédito às empresas. Não cabe aqui discutir os efeitos dessas políticas (faremos isso numa próxima Nota), mas tais medidas impulsionaram o consumo que, juntamente com a indisponibilidade de alguns insumos básicos para o processo produtivo e o aumento da taxa de câmbio, forçaram os preços a subir.

No sentido inverso, para conter uma possível escalada de preços e aumento do endividamento das famílias, o Copom se viu “forçado” a rever sua política expansionista e elevar a taxa básica de juros. Para compreender de que maneira essa decisão possa impactar a economia cearense nos próximos meses, conduzimos uma simulação condizente com uma elevação da taxa de juros em 0,75 p.p. acima de seu nível de tendência de longo prazo ou de forma mais técnica, do seu “estado estacionário”. Isso é o que chamamos de política monetária contracionista, pois esta tende a contrair o produto, conforme se foi discutido anteriormente.

Os gráficos a seguir apresentam as funções impulso-resposta geradas pelo modelo para o PIB, o trabalho e o consumo, tanto a nível regional quanto nacional (o modelo permite analisar diversas outras variáveis macroeconômicas nacionais e regionais, mas aqui iremos nos concentrar nessas três).

Figura 2: Funções Impulso-Resposta de choques na Taxa de Juros

Fonte: Elaboração própria.

É importante notar que esse é um tipo de exercício “coeteris paribus”, ou seja, ele revela o efeito líquido da elevação da taxa de juros, descontados todos os outros choques (positivos e negativos) que vem afetando e que possam vir a afetar a economia. A elevação de 0,75 ponto percentual da taxa de juros tem um efeito imediato no arrefecimento potencial na taxa de crescimento do produto cearense de aproximadamente 0,3% na sua tendência de longo prazo. O produto ainda poderá cair mais de 0,4% e depois voltará ao seu nível de equilíbrio de maneira muito mais amena do que o restante do país. A leitura é semelhante para as outras duas variáveis macroeconômicas cearenses.

De um modo geral, o que as funções impulso-resposta revelam é que, embora o impacto dessa medida seja maior no Brasil, o país se recupera do efeito dessa política de forma muito mais acelerada do que o Ceará.

É importante ressaltar que as simulações apresentadas estão em linha com a literatura especializada que lida com o tema, que sugere que: “muitos estados das regiões Norte e Nordeste são mais fortemente afetados pelo aumento da taxa de juros” que outras regiões do país. [Bertanha e Haddad (2008)]; que “o emprego dos estados localizados nas Regiões Norte e Nordeste é mais vulnerável a choques na política monetária”, [Araujo Jr (2004)]; que “dos 16 estados que compões as regiões Norte e Nordeste, apenas 3 aparecem no grupo dos mais sensíveis à política monetária, sendo eles os Estados do Amazonas, Ceará e Pernambuco” [Serrano e Nakane (2015)]. Além disso, Serrano e Nakane (2015) fazem uso de um VAR Bayesiano e apresentam funções impulso-resposta para a produção industrial cearense muito em linha com as encontradas para o PIB do modelo.

Em termos de avaliação de políticas públicas, as simulações revelam também que a medida tomada pelo Copom virá agravar os efeitos negativos advindos da pandemia e que esses efeitos são assimétricos e podem recair mais para o Ceará quando comparados a média nacional. Pode-se esperar aumento potencial do desemprego, queda de consumo e produto por conta dessas ações de caráter nacional.

Nesse sentido, dado o caráter recessivo que uma política monetária desencadeia em nível nacional, que os Estados se veem na emergência de se antecipar a esse movimento nacional. Como as unidades federativas não operam esses instrumentos, políticas anticíclicas regionais precisam ser construídas pelo lado fiscal. A liderança nacional que o estado do Ceará tem exercido nos últimos anos como maior investidor nacional do pais e dado sua condição fiscal organizada, abre a possibilidade de colocar em pauta a análise de diversas ações, para que em parceria com o setor produtivo local, possa produzir um anteparo imediato a esse processo, tarefa de análise do Observatório com as outras áreas do governo cearense.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Eurilton et al. Medindo o impacto regional da política monetária brasileira: uma comparação entre as regiões Nordeste e Sul. Revista Econômica do Nordeste, v. 35, n. 3, p. 356-393, 2004.

BERTANHA, Marinho; HADDAD, Eduardo Amaral. Efeitos regionais da política monetária no Brasil: impactos e transbordamentos espaciais. Revista Brasileira de Economia, v. 62, n. 1, p. 3-29, 2008.

SERRANO, Fábio Martins; NAKANE, Marcio Issao. Impacto regional da política monetária no Brasil: uma abordagem Bayesiana. Department of Economics, FEAUSP Working Paper nº 2015-44, 2015.


Mauro Benevides Filho

Secretário do Planejamento e Gestão
Mauro Benevides Filho é formado em Economia pela Universidade de Brasilia (UnB) e PhD na mesma área pela Vanderbilt University. É professor da graduação e pós graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi secretário de finanças do município de Fortaleza, bem como secretário estadual da Fazenda por quase 12 anos. Atuou ainda como coordenador do Conselho Nacional de Politica Fazendária (Confaz) nos anos de 2008 e 2009. Atualmente é deputado federal, licenciado para exercer o cargo de secretário do Planejamento e Gestão do Governo do Ceará, onde coordena todo o processo de transformação digital do Estado.

Flávio Ataliba

Secretário Executivo de Planejamento e Orçamento/Cientista Chefe em Economia Graduado em Economia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com mestrado no CAEN/UFC e FGV/RJ; Doutor em Economia pela FGV/RJ, Pesquisador Visitante na University of Pennsylvania/EUA; Pós-Doutor em Economia pela Universidade de Harvard/EUA e Universidade Técnica de Lisboa, Portugal. É Professor Titular do Departamento de Economia Aplicada da UFC. Atualmente é Secretário Executivo de Planejamento e Orçamento da Secretaria do Planejamento e Gestão (Seplag). Anteriormente ocupou o cargo de Diretor Geral do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE). Foi Coordenador do CAEN e fundador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP da UFC.

Christiano Penna

Doutor em economia pelo CAEN, Bolsista de produtividade em Pesquisa do CNPq e Pesquisador do Observatório do Federalismo Brasileiro.

Isadora G. C. Osterno

Mestrado Acadêmico em Economia pelo Centro de Aperfeiçoamento de Economistas do Nordeste (CAEN/UFC), 2018. Graduação em Economia com distinção Magna Cum Laude pela Universidade Federal do Ceará (UFC), 2014. Atualmente, é Assessora Econômica da Seplag/CE e doutoranda em Economia pelo CAEN/UFC. Sua pesquisa dedica-se a assuntos relacionados à Macroeconomia, Setor Público e Métodos Quantitativos.